Foto: Vinicius Becker (Diário)
O professor Luciano Schuch se despediu oficialmente da Reitoria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) na manhã desta terça-feira (6), durante a cerimônia de transmissão de cargo para a professora Martha Adaime. Em um discurso emocionado, optou por não enumerar feitos administrativos, obras ou indicadores, e escolheu destacar aquilo que, segundo ele, é a maior fortaleza da universidade: as pessoas.
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Logo no início da fala, o professor ressaltou o compromisso com a acessibilidade e a inclusão, ao realizar uma autodescrição em respeito às pessoas com deficiência presentes na cerimônia. Schuch também destacou a emoção de dividir a mesa com lideranças acadêmicas e políticas que admira, citando de forma especial mulheres que fizeram história à frente de instituições, como a nova reitora da UFSM.
Balanço

Ao longo do discurso, lembrou as profundas transformações vividas pela universidade nos últimos anos, ressaltando o papel do ensino, da pesquisa e da extensão na formação de profissionais e na contribuição direta para a sociedade. Segundo ele, a instituição manteve, ao longo de seus 65 anos, o compromisso com o ensino, a pesquisa e a extensão como pilares de transformação social.
Também pontuou que sua gestão atravessou um período considerado por ele como um dos mais complexos da história recente da universidade. Entre os episódios citados, estavam o início de um governo federal negacionista, a pandemia da Covid-19, restrições orçamentárias severas, eventos climáticos extremos, assassinatos de professores, acidentes graves e o acidente envolvendo o ônibus do Colégio Politécnico, com estudantes do curso de Paisagismo.
Em contrapartida, destacou a ampliação de cursos, o retorno do Vestibular, a criação da Pró-Reitoria de Inovação e o conceito máximo (IGC 5) alcançado pela instituição. O ex-reitor refletiu sobre erros e acertos da gestão e sobre a importância da mudança para o avanço institucional.
Após listar crises e avanços, explicou a razão da escolha: falar sobre o aprendizado mais importante da gestão.
— Vou falar do que eu mais aprendi nessa caminhada na gestão da nossa universidade. Vou falar do que a gente tem de melhor da nossa universidade, que são as pessoas. São as pessoas que transformam, são cada um de vocês e tantos outros que não estão aqui, milhares de pessoas que fazem essa universidade.
— Acertamos e erramos. Mas erramos tentando acertar. Não erramos com intenção. Acredito na mudança que é um processo natural, e essas pessoas vão trazer um novo olhar a um mesmo projeto. Precisávamos de uma mulher reitora para combater o machismo estrutural ainda muito presente no mundo — defendeu.
Para o ex-reitor, compreender a singularidade de cada pessoa, seus ritmos, histórias, sonhos e limitações — foi essencial para construir uma gestão mais humana.
— Quando a gente entende isso, da autonomia, das condições, o extraordinário acontece. O extraordinário acontece. As pessoas trabalham com amor, com propósito e os resultados acontecem naturalmente.
Machismo estrutural e a defesa de Martha Adaime

O segundo fator citado por Schuch foi o entendimento de que a UFSM estava pronta para ter, pela primeira vez, uma mulher à frente da Reitoria. Nesse momento, o discurso ganhou um tom contundente ao abordar o machismo estrutural enfrentado pela nova reitora.
— Já estava na hora de a universidade ter uma reitora mulher, uma reitora para assumir a gestão. E falar do momento em que eu defini, tornei público que não iria ser reitora da nossa universidade, foi um dos momentos mais difíceis também da gestão. Foi a primeira vez que eu vi o machismo estrutural dentro da universidade e na sociedade. Primeira vez que eu vi, eu senti. Ninguém questionou a professora Martha por ser a pessoa mais experiente para assumir esse cargo. Ninguém questionou ela por ser vice-diretora, diretora por dois mandatos, ter sido pró-reitora da Graduação, ter sido pró-reitora do Planejamento, ter sido chefe de gabinete do reitor, por ser líder de um grupo de pesquisa e líder de um dos laboratórios que presta serviço e mais capta recursos na universidade, um laboratório acreditado pelo Inmetro, ser pesquisadora do CPQG. Ninguém questionou isso. Sabe o que todo mundo questionou? Ela ser mulher. Ela não ter estabilidade. Ela não ter capacidade emocional. Isso é machismo e está presente na sociedade.
Denúncia ao Conselho Tutelar e limites da vida pessoal
O terceiro fator decisivo para não seguir na gestão foi um episódio pessoal envolvendo sua família. Schuch relatou que ele e a esposa foram alvo de uma denúncia ao Conselho Tutelar, o que também resultou em encaminhamentos à delegacia e ao Ministério Público Federal.
— O conselho tutelar bate na minha casa dizendo que eu e a minha esposa não cuidamos do meu filho. Tive que ir no Conselho Tutelar, na delegacia de polícia, dizer que eu e minha esposa somos bons pais devido à denúncia de colegas da universidade.
Conselho para a nova gestão
Ao final do discurso, Luciano Schuch deixou um conselho direto à nova reitora Martha Adaime e ao vice-reitor Tiago Marchesan:
— Tenham um norte muito claro. Tenham um propósito muito claro. Definam o caminho para ser uma universidade, tudo com essa equipe linda que vocês têm. Porque as "escolhas da Sofia" vão aparecer. Porque a gente não vai ter recurso para fazer tudo o que for necessário. A gente não vai ter vagas docentes, não vai ter técnicos em educação, a gente não vai ter espaço físico. A gente não vai ter os meios necessários para fazer tudo o que é necessário. Mas, quando a gente tem um norte definido e claro, a gente consegue escolher. A gente consegue definir. E define com o coração tranquilo. Define com a leveza que é ser reitora e vice-reitora. Mas, para isso, tem que ter muito claro o norte, porque as pressões vão ser gigantescas. As pressões dessa mesa, a pressão da comunidade, a pressão de todos. Por isso, definições de norte muito, muito claras. Também não posso deixar aqui de dar as boas-vindas a essa equipe que está aqui, que é uma equipe que eu admiro muito.